quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Sintra – 6:40


 


Não direi que o profundo ódio que eu sentia pelo mundo, antes de te encontrar, naquela viagem, tenha completamente desaparecido. Contudo, o silêncio na noite, quando saio de casa às 6:20, é agora apenas o silêncio da noite, em cujo seio noturno, é gerada uma nova manhã de um novo dia e, tal como me disseste, é aí, sempre, nesse instante de nascimento, primordial, que reside o nosso tão frágil poder enquanto homens.

Penso ainda, no entanto, no movimento de cada dia, na chegada à estação de comboios de Sintra, antes do nascer do sol, que nesta rotina que me é imposta, desde há dez anos, há um sofrimento quase tão eterno quanto o de um Sísifo – e quando me projeto por outros tantos anos nesta ação quotidiana, acredito mesmo que esta é uma dinâmica que não terá jamais um fim para mim. E, se penso assim, é porque, após o nosso encontro, ainda não fui capaz do ato de derradeira coragem que me ensinaste, o ato de me libertar de mim mesmo. «Se não consegues continuar a viver contigo mesmo, é apenas porque há uma parte de ti que oferece resistência à Vida. Experimenta não resistires; experimenta provar o travo da verdadeira liberdade, que é deixares de corresponder apenas às expectativas que uma parte de ti e os outros têm sobre a outra parte de ti que é aquela que é real e que é a que se sente perturbada pela Vida». Sei que é verdadeiro o sentido das tuas palavras. Sei que, por um mistério da existência, cada homem é dois e não um. Sei que há um de mim que quer a «segurança» de um emprego, a «segurança» de uma rotina; e sei que há um outro de mim que recusa tudo isso. É o outro o que não quer ser tributado nem escravizado no desconforto diário de uma profissão que deixou de exercer um incentivo e, com isso, deixou também de estimular a inteligência. É o outro, se calhar, que te ouviu mais atentamente do que eu que constrói em mim uma pressão interior, quando me levanto e quando, como sempre, organizo na pasta os dossiers e os livros, antes de sair de casa. É o outro que, agora, me desafia a não entrar no comboio e a antes confiar nas tuas palavras. Mas não será ainda hoje… como é hábito cheguei à estação, confiro os rostos familiares àquela hora – os quase sempre habituais companheiros da viagem durante a semana – e confirmo, no placard eletrónico, a hora de partida: 6:40.

A verdade é que, nas semanas seguintes a ter-te conhecido, a transformação da minha realidade ter-me-á parecido possível e como estando ao alcance do meu esforço e da minha vontade. Troquei, inclusivamente, o sobretudo cinzento, que, bem sei, me definia perante os meus alunos como um professor envelhecido, por uma canadiana azul, de recorte mais moderno, e os trinta alunos, em geral, desinteressados da densa monotonia da leitura dos poetas pós-modernos pareceram-me mais toleráveis e a minha tarefa de gerir os noventa minutos de uma aula foi suportável. O que aconteceu em mim, nesse período de tempo, foi apenas o efeito de um benéfico contacto entre dois seres que, por um acaso, se cruzaram.

Mas onde te encontras tu agora, Beatriz? Por acaso lembrar-te-ás ainda da manhã gélida e chuvosa deste inverno em que nos conhecemos na estação de comboios de Sintra? Lembrar-te-ás ainda da enorme gare metálica, que torna mais gelada a espera pela hora de partida do comboio? Lembrar-te-ás da densa neblina que cerca a estação e o arvoredo que evoca o espírito romântico da vila que foi de reis e de poetas e de idealistas como tu e, gostaria de poder acrescentar, como eu? Lembrar-te-ás do alto e magro professor de cinquenta anos que te ajudou a validar o bilhete e a quem deste uma lição de vida durante os trinta e nove minutos da viagem?

Talvez não. Tão jovem ainda, terás pouco mais de vinte anos, este encontro terá sido para ti um episódio fortuito; um incidente de quotidiano. Talvez até já tenhas partido para a Índia, como disseste que o farias, na ânsia de ires ao encontro de um exotismo espiritual que melhor te redefina. Talvez nunca mais te encontre… e que importa isso, afinal? , se fixei a nossa conversa como um marco de viragem na minha existência e se te prometi que iria transformar a minha vida. Respondeste que nunca é demasiado tarde e que o momento de poder está sempre contido no momento presente, quando  tomamos consciência de algo e agimos.

E, neste preciso instante, tal como aconteceu ontem, e no dia anterior a ontem, e no outro também, experimento a tontura do movimento da transformação: o comboio que partirá para o Rossio acaba de chegar ao cais terminal de Sintra; tenho escassos minutos para tomar a decisão de não embarcar e de criar um marco de verdadeiro passado na minha vida. Um antes e um depois. Um antes que, sendo inteiramente só passado, se converterá naquilo que era a ilusão – o falso – de uma vida estável e feita de segurança e que, deixado para trás, permitirá o surgimento de uma certa forma de libertação daquilo que era a escravatura do quotidiano. Mas, justamente, nesta fronteira da decisão, que corresponde ao momento exato de entrar no comboio, como sempre, hesito. O passo firme que construiria um depois – um tempo novo – não é dado. Seria necessário que alguma coisa, dentro de mim, me dissesse inequivocamente «Vai». E aí partiria não no comboio mas com a firmeza do meu próprio passo em direção ao sempre instável e incerto caminho da liberdade.

Porque me lembro, então, agora, da parábola que me contaste? O mendigo, pedindo esmola, que se sentava num velho caixote cheio de moedas de ouro, sem nunca ter tido curiosidade de ver o seu interior. Pois é assim que eu me sinto. Tal como o pedinte, sinto-me incapaz de ver e de procurar para além da materialidade do mundo que me cerca. Sinto-me incapaz de deixar de mendigar aos outros a esmola da sobrevivência diária. Por isso, sempre tenho entrado no comboio. Não o fazer significaria abrir o caixote e ter de procurar o que contém. E tal como pode estar cheio de moedas de ouro, também há o risco de estar vazio e, neste último caso, desperdiçamos a esmola. É esse o desafio de uma caixa fechada. Desconhecemos o que contém.

Mas não será ainda hoje… não é ainda hoje que me confrontarei com a minha riqueza interior (ou com a ausência dela). Pedir esmola é sempre mais fácil: recebe-se apenas o estritamente necessário para a sobrevivência diária; tudo é simples, conhece-se até o gesto de estender a mão, bem assim como as palavras de enternecimento da boa vontade dos outros. Gerir um tesouro, pelo contrário, obriga a gestos novos e complexos, que nunca foram estudados, e que poderão não ser simples, sobretudo se se quiser manter ou até aumentar a riqueza; obriga também a todo um discurso novo, que não pode ser estudado nem tão pouco é monocórdico e previsível. É sempre mais seguro percorrer uma estrada que se conhece do que correr o risco de seguir um caminho nunca antes trilhado – mesmo que a riqueza seja incomparavelmente maior.

Por isso, e embora me detenha num último passo, em frente à porta da carruagem do comboio, sei, pressinto-o, que entrarei mais uma vez. Embarcarei para a viagem do destino conhecido. Paragem a paragem, entrarão as mesmas pessoas, também elas acorrentadas ao mesmo grilhão de sofrimento quotidiano. Também elas, como eu, presas à ilusão de que um salário miserável é uma garantia de sobrevivência e incapazes, como eu, de arriscar descobrir se nelas existirá a riqueza suficiente para que, em vez de serem escravizadas, possam viver como seres no exercício da sua liberdade.

E, justamente, entro. Entrei mais uma vez, Beatriz. Sei que não o compreendes. Eu tão pouco o consigo compreender também. Quando me disseste que vivias num monte isolado na serra algarvia, onde tinhas passado a infância e crescido, e que estavas a utilizar o comboio na linha de Sintra pela primeira vez; disse-te que também eu tinha um monte, no Alentejo, e que o meu grande sonho era poder viver lá, quando a vida mo permitisse. E aí espantaste-te. Não entendias que tendo um homem adulto um sonho não se permitisse realizá-lo sem constrangimentos e sem procrastinação. E entendi-te perfeitamente. O que na verdade é difícil é ter um sonho ou um projeto. A ideia nova é o grande desafio para o homem. Tanto que o mundo só progride, quando surgem ideias que o transformam. O que é válido para o mundo é também válido para o indivíduo. Só existe progresso e transformação no ser humano, quando, obedecendo voluntariamente a um sentido imaterial, este é capaz de criar objetivamente algo de novo – vencendo os riscos de incerteza que o novo sempre contém em si mesmo. Tão frágil que é este sonho!, penso, já sentado no lugar habitual da carruagem em que sempre me instalo. E nem pestanejo neste acomodamento em que me encontro, embora saiba da vastidão quase infinita do mundo, num para além que tu, Beatriz, tão bem sublinhaste.

O comboio inicia a marcha. Há um mês atrás, acompanhaste-me, casualmente, nesta viagem que, para mim, é rotineira, mas, para ti, se relevava como um trajeto de descoberta. Tinhas chegado há uma semana atrás de carro à vila. Estiveras alojada em casa de amigos, um hostel renovado, que acolhia gente de diferentes cantos do mundo. Esta situação era familiar para ti. No Algarve, sempre viveras neste movimento de chegadas e de partidas de gente vinda dos mais remotos lugares e habituaras-te a considerares natural o facto e o gesto inesperados, às vezes desconcertantes, desses que provinham de culturas longínquas. Na verdade, com vinte anos, desconhecias a palavra rotina. Cada dia era para ti sempre um dia renovado, marcado quase constantemente pelo inusitado. A tua escola fora a escola da vida quotidiana e pouco mais aprenderas do que o essencial da leitura e da escrita. Contudo, como vim a descobrir durante a viagem, tinhas o dom da mestria da palavra enriquecido por um profundo conhecimento da vida. Nesses momentos em que falavas parecias muito, mas muito, mais velha. Parecia que décadas de experiências e de dissabores haviam modelado em ti um perfeito pensamento doutrinário. E eu, incauto viajante e teu companheiro de percurso, recebi a exemplar lição na esperança de a poder aplicar na minha vida enquanto homem que mais não deseja do que ser capaz de construir para si mesmo um sentido de existência.

 

  

Frequentemente, tememos ser livres. 

Há uma realidade; mas sobre ela há uma multiplicidade de olhares.

E o que cada um vê ocorre na medida da sua consciência.