Não
direi que o profundo ódio que eu sentia pelo mundo, antes de te encontrar, naquela
viagem, tenha completamente desaparecido. Contudo, o silêncio na noite, quando
saio de casa às 6:20, é agora apenas o silêncio da noite, em cujo seio noturno,
é gerada uma nova manhã de um novo dia e, tal como me disseste, é aí, sempre,
nesse instante de nascimento, primordial, que reside o nosso tão frágil poder
enquanto homens.
Penso
ainda, no entanto, no movimento de cada dia, na chegada à estação de comboios
de Sintra, antes do nascer do sol, que nesta rotina que me é imposta, desde há
dez anos, há um sofrimento quase tão eterno quanto o de um Sísifo – e quando me
projeto por outros tantos anos nesta ação quotidiana, acredito mesmo que esta é
uma dinâmica que não terá jamais um fim para mim. E, se penso assim, é porque,
após o nosso encontro, ainda não fui capaz do ato de derradeira coragem que me
ensinaste, o ato de me libertar de mim mesmo. «Se não consegues continuar a
viver contigo mesmo, é apenas porque há uma parte de ti que oferece resistência
à Vida. Experimenta não resistires; experimenta provar o travo da verdadeira
liberdade, que é deixares de corresponder apenas às expectativas que uma parte
de ti e os outros têm sobre a outra parte de ti que é aquela que é real e que é
a que se sente perturbada pela Vida». Sei que é verdadeiro o sentido das tuas
palavras. Sei que, por um mistério da existência, cada homem é dois e não um.
Sei que há um de mim que quer a «segurança» de um emprego, a «segurança» de uma
rotina; e sei que há um outro de mim que recusa tudo isso. É o outro o que não
quer ser tributado nem escravizado no desconforto diário de uma profissão que
deixou de exercer um incentivo e, com isso, deixou também de estimular a
inteligência. É o outro, se calhar, que te ouviu mais atentamente do que eu que
constrói em mim uma pressão interior, quando me levanto e quando, como sempre,
organizo na pasta os dossiers e os livros, antes de sair de casa. É o outro
que, agora, me desafia a não entrar no comboio e a antes confiar nas tuas
palavras. Mas não será ainda hoje… como é hábito cheguei à estação, confiro os
rostos familiares àquela hora – os quase sempre habituais companheiros da
viagem durante a semana – e confirmo, no placard eletrónico, a hora de partida:
6:40.
A
verdade é que, nas semanas seguintes a ter-te conhecido, a transformação da
minha realidade ter-me-á parecido possível e como estando ao alcance do meu
esforço e da minha vontade. Troquei, inclusivamente, o sobretudo cinzento, que,
bem sei, me definia perante os meus alunos como um professor envelhecido, por
uma canadiana azul, de recorte mais moderno, e os trinta alunos, em geral,
desinteressados da densa monotonia da leitura dos poetas pós-modernos
pareceram-me mais toleráveis e a minha tarefa de gerir os noventa minutos de
uma aula foi suportável. O que aconteceu em mim, nesse período de tempo, foi
apenas o efeito de um benéfico contacto entre dois seres que, por um acaso, se
cruzaram.
Mas
onde te encontras tu agora, Beatriz? Por acaso lembrar-te-ás ainda da manhã
gélida e chuvosa deste inverno em que nos conhecemos na estação de comboios de
Sintra? Lembrar-te-ás ainda da enorme gare metálica, que torna mais gelada a
espera pela hora de partida do comboio? Lembrar-te-ás da densa neblina que
cerca a estação e o arvoredo que evoca o espírito romântico da vila que foi de
reis e de poetas e de idealistas como tu e, gostaria de poder acrescentar, como
eu? Lembrar-te-ás do alto e magro professor de cinquenta anos que te ajudou a
validar o bilhete e a quem deste uma lição de vida durante os trinta e nove
minutos da viagem?
Talvez
não. Tão jovem ainda, terás pouco mais de vinte anos, este encontro terá sido
para ti um episódio fortuito; um incidente de quotidiano. Talvez até já tenhas
partido para a Índia, como disseste que o farias, na ânsia de ires ao encontro
de um exotismo espiritual que melhor te redefina. Talvez nunca mais te
encontre… e que importa isso, afinal? , se fixei a nossa conversa como um marco
de viragem na minha existência e se te prometi que iria transformar a minha
vida. Respondeste que nunca é demasiado tarde e que o momento de poder está sempre
contido no momento presente, quando
tomamos consciência de algo e agimos.
E,
neste preciso instante, tal como aconteceu ontem, e no dia anterior a ontem, e
no outro também, experimento a tontura do movimento da transformação: o comboio
que partirá para o Rossio acaba de chegar ao cais terminal de Sintra; tenho
escassos minutos para tomar a decisão de não embarcar e de criar um marco de
verdadeiro passado na minha vida. Um antes e um depois. Um antes que, sendo
inteiramente só passado, se converterá naquilo que era a ilusão – o falso – de
uma vida estável e feita de segurança e que, deixado para trás, permitirá o
surgimento de uma certa forma de libertação daquilo que era a escravatura do
quotidiano. Mas, justamente, nesta fronteira da decisão, que corresponde ao
momento exato de entrar no comboio, como sempre, hesito. O passo firme que
construiria um depois – um tempo novo – não é dado. Seria necessário que alguma
coisa, dentro de mim, me dissesse inequivocamente «Vai». E aí partiria não no
comboio mas com a firmeza do meu próprio passo em direção ao sempre instável e
incerto caminho da liberdade.
Porque
me lembro, então, agora, da parábola que me contaste? O mendigo, pedindo
esmola, que se sentava num velho caixote cheio de moedas de ouro, sem nunca ter
tido curiosidade de ver o seu interior. Pois é assim que eu me sinto. Tal como
o pedinte, sinto-me incapaz de ver e de procurar para além da materialidade do
mundo que me cerca. Sinto-me incapaz de deixar de mendigar aos outros a esmola
da sobrevivência diária. Por isso, sempre tenho entrado no comboio. Não o fazer
significaria abrir o caixote e ter de procurar o que contém. E tal como pode
estar cheio de moedas de ouro, também há o risco de estar vazio e, neste último
caso, desperdiçamos a esmola. É esse o desafio de uma caixa fechada.
Desconhecemos o que contém.
Mas
não será ainda hoje… não é ainda hoje que me confrontarei com a minha riqueza
interior (ou com a ausência dela). Pedir esmola é sempre mais fácil: recebe-se
apenas o estritamente necessário para a sobrevivência diária; tudo é simples,
conhece-se até o gesto de estender a mão, bem assim como as palavras de
enternecimento da boa vontade dos outros. Gerir um tesouro, pelo contrário,
obriga a gestos novos e complexos, que nunca foram estudados, e que poderão não
ser simples, sobretudo se se quiser manter ou até aumentar a riqueza; obriga
também a todo um discurso novo, que não pode ser estudado nem tão pouco é
monocórdico e previsível. É sempre mais seguro percorrer uma estrada que se
conhece do que correr o risco de seguir um caminho nunca antes trilhado – mesmo
que a riqueza seja incomparavelmente maior.
Por
isso, e embora me detenha num último passo, em frente à porta da carruagem do
comboio, sei, pressinto-o, que entrarei mais uma vez. Embarcarei para a viagem
do destino conhecido. Paragem a paragem, entrarão as mesmas pessoas, também
elas acorrentadas ao mesmo grilhão de sofrimento quotidiano. Também elas, como
eu, presas à ilusão de que um salário miserável é uma garantia de sobrevivência
e incapazes, como eu, de arriscar descobrir se nelas existirá a riqueza
suficiente para que, em vez de serem escravizadas, possam viver como seres no
exercício da sua liberdade.
E,
justamente, entro. Entrei mais uma vez, Beatriz. Sei que não o compreendes. Eu
tão pouco o consigo compreender também. Quando me disseste que vivias num monte
isolado na serra algarvia, onde tinhas passado a infância e crescido, e que
estavas a utilizar o comboio na linha de Sintra pela primeira vez; disse-te que
também eu tinha um monte, no Alentejo, e que o meu grande sonho era poder viver
lá, quando a vida mo permitisse. E aí espantaste-te. Não entendias que tendo um
homem adulto um sonho não se permitisse realizá-lo sem constrangimentos e sem
procrastinação. E entendi-te perfeitamente. O que na verdade é difícil é ter um
sonho ou um projeto. A ideia nova é o grande desafio para o homem. Tanto que o
mundo só progride, quando surgem ideias que o transformam. O que é válido para
o mundo é também válido para o indivíduo. Só existe progresso e transformação
no ser humano, quando, obedecendo voluntariamente a um sentido imaterial, este
é capaz de criar objetivamente algo de novo – vencendo os riscos de incerteza que
o novo sempre contém em si mesmo. Tão frágil que é este sonho!, penso, já
sentado no lugar habitual da carruagem em que sempre me instalo. E nem
pestanejo neste acomodamento em que me encontro, embora saiba da vastidão quase
infinita do mundo, num para além que tu, Beatriz, tão bem sublinhaste.
O
comboio inicia a marcha. Há um mês atrás, acompanhaste-me, casualmente, nesta
viagem que, para mim, é rotineira, mas, para ti, se relevava como um trajeto de
descoberta. Tinhas chegado há uma semana atrás de carro à vila. Estiveras
alojada em casa de amigos, um hostel renovado, que acolhia gente de diferentes
cantos do mundo. Esta situação era familiar para ti. No Algarve, sempre viveras
neste movimento de chegadas e de partidas de gente vinda dos mais remotos
lugares e habituaras-te a considerares natural o facto e o gesto inesperados,
às vezes desconcertantes, desses que provinham de culturas longínquas. Na
verdade, com vinte anos, desconhecias a palavra rotina. Cada dia era para ti
sempre um dia renovado, marcado quase constantemente pelo inusitado. A tua
escola fora a escola da vida quotidiana e pouco mais aprenderas do que o
essencial da leitura e da escrita. Contudo, como vim a descobrir durante a
viagem, tinhas o dom da mestria da palavra enriquecido por um profundo
conhecimento da vida. Nesses momentos em que falavas parecias muito, mas muito,
mais velha. Parecia que décadas de experiências e de dissabores haviam modelado
em ti um perfeito pensamento doutrinário. E eu, incauto viajante e teu
companheiro de percurso, recebi a exemplar lição na esperança de a poder
aplicar na minha vida enquanto homem que mais não deseja do que ser capaz de
construir para si mesmo um sentido de existência.